O território não é homogéneo: o que a autocorrelação espacial nos diz sobre agricultura e decisões locais

26-01-2026

Quando um município olha para o seu mundo rural, há uma tentação frequente: tratar as freguesias como "pontos" independentes. Um estudo com base no Recenseamento Agrícola 2019 mostra exatamente o contrário: existem padrões territoriais (clusters) e efeitos espaciais que influenciam diagnósticos e conclusões.

O que é "autocorrelação espacial" (sem complicar)

Em termos simples: mede se valores altos (ou baixos) de um indicador tendem a agrupar-se geograficamente. O estudo usa a estatística Moran's I para avaliar autocorrelação global e local, identificando padrões como:

  • high-high (valores altos rodeados de valores altos),
  • low-low (valores baixos rodeados de valores baixos).

Porquê isto interessa? Porque ajuda a desenhar estratégias e políticas comuns para áreas contíguas, evitando duplicações e ganhando eficiência.

O retrato do país rural: dimensão, trabalho e produção

O estudo observa que, em geral, as explorações tendem a ser maiores no sul do continente, com várias freguesias de municípios do Alentejo e afins a surgirem com maior área agrícola utilizada.

Depois, quando se entra na autocorrelação, há sinais relevantes:

  • autocorrelação global positiva em variáveis ligadas à área agrícola utilizada, com destaque para a área por unidade de trabalho anual.
  • autocorrelação local: em geral, aparecem padrões de high-high no sul e low-low no norte, com significância indicada no estudo.

Um resultado com impacto para políticas locais: trabalho pesa mais do que hectares

O estudo estima relações do tipo Cobb-Douglas e conclui algo muito acionável para decisões públicas: um aumento de 1% na mão-de-obra agrícola (AWU) está associado a um aumento maior do output do que um aumento de 1% na área agrícola utilizada (UAA) (na especificação OLS apresentada).

Isto não é "uma receita universal", mas é um alerta forte para o desenho de políticas locais:
muitas estratégias falham por focarem apenas "mais área" ou "mais investimento físico", quando o gargalo pode estar em capacidade humana, organização, qualificação e atração/retenção de trabalho.

O que isto muda para Municípios e Comunidades Intermunicipais

Quatro implicações práticas:

  1. Diagnóstico por freguesia faz diferença: o território tem padrões e vizinhanças que importam.
  2. Projetos devem ser desenhados por "zonas funcionais", não só por fronteiras administrativas.
  3. Cooperação intermunicipal pode aumentar eficiência (quando há clusters partilhados).
  4. A bioeconomia local ganha força quando parte de: recurso → fileira → projeto → execução (com prioridades claras).

Na GestPub, esta lógica é a base do nosso serviço "Diagnóstico Rural & Bioeconomia": mapas + prioridades + carteira de projetos + roadmap de execução, orientado a investimento e candidaturas.

Fonte: Spatial Autocorrelation in Indicators Related to Portuguese Agriculture (artigo académico, com base no Recenseamento Agrícola 2019).